Callado's "Contadora de História"











{fevereiro 26, 2008}   O CAMINHO EVOLUTIVO

De acordo com uma hipótese hoje já bem aceita pelos antropólogos, há talvez 200 milhões de anos, o super-continente que originalmente constituiu o manto esférico da Terra – conhecido como Pangéia – entrou num processo de partição gradual, muitas vezes violento, e que resultou nos continentes como hoje se reconhece o mundo. No acompanhamento dessa evolução de nossa superfície, há cerca de 12 milhões de anos, o nosso planeta começou a passar por um estado de transformação que viria a ser crucial para a evolução do homem. A movimentação das placas que compõem o manto do planeta resultou em levantamento de grandes cordilheiras de montanhas – o Himalaia, as Rochosas e os Andes.

Após períodos de eras glaciais acentuadas, uma vasta e densa floresta acarpetava grande parte da Europa, Índia, Arábia e o leste da África. Por quase 60 milhões de anos, essas florestas tinham abrigado os primatas e propiciado sua constante evolução. Mas, como conseqüência de mudanças totais no ambiente, esse seguro e verde abrigo começou a diminuir e a ser em parte substituído por um campo relativamente aberto ou savana. Portanto, a floresta expôs seus habitantes a uma nova pressão ecológica: o terreno aberto, que oferecia um modo de vida muito diferente do de uma existência arbórea – incluindo predadores aos quais os habitantes da floresta não estavam, em geral, expostos.

Com essas novas exigências surgiu também uma nova oportunidade e um dos moradores da floresta, um pequeno antropóide com cerca, talvez, de 1m altura, aproveitou-se disso e veio a se tornar o precursor direto do Homo Sapiens. Livrar as mãos, pelo simples expediente do andar ereto sobre os membros posteriores, foi parte de um intrincado complexo de comportamento evolucionário que pode ter envolvido também diversos outros fatores, como dieta, proteção contra predação, ou mudança na organização social. Esse complexo comportamental, uma vez iniciado, retroalimentou-se, acelerando cada vez mais a evolução, para afinal produzir a espécie humana.

Esse período, portanto, durante o qual as savanas começaram a substituir as florestas foi crucial, segundo os antropólogos, na evolução do andar ereto e, por isso mesmo, na evolução dos humanos. Se esse período tivesse surgido antes, os primatas de hoje poderiam ter sido dominados por macacos que andassem sobre as quatro patas, como os babuínos; se tivesse surgido mais tarde, os antropóides poderiam todos ter seguido o caminho evolucionário dos gibões. De qualquer modo, a possível chegada do Homo Sapiens teria sido bastante retardada, se é que algum dia teria acontecido. Nessa fase de evolução o ser humano em formação só detinha um raciocínio primário, uma vez que seu período evolutivo final ainda não havia sido definido pela Natureza, quando iria ser dotado da energia cósmica – a Inteligência.

À medida que os hominídeos se tornavam mais bipedais, seus pés iam se adaptando para andar com mais eficiência. Mas o pé que pode andar não é o pé que pode agarrar, e isso se aplica também às crianças. Como resultado, a criança não pode mais segurar-se ao corpo de sua mãe com as duas mãos e os dois pés, do mesmo modo eficiente que seus primos antropóides. Por conseguinte a mãe tem maior necessidade de ser capaz de carregar o bebê em seus braços e, assim, o eficiente andar ereto tornou-se mais ainda importante. Em outras palavras, quanto mais uma espécie desenvolve o andar bipedal, mais é forçada a evoluir nessa direção.

No que respeita a um objeto com o qual o primitivo hominídeo ereto teria ocupado suas mãos, agora vazias, a resposta mais razoável é que teria sido uma ferramenta. Sherwood Washburn, primatologista americano, vai mais adiante, a ponto de sustentar que o uso de ferramentas foi a força principal que levou os hominídeos – nossos ancestrais – ao uso das suas pernas posteriores para andar. A idéia é sem dúvida atraente, por uma série de razões. Ao explorar seu novo habitat ecológico, os primeiros hominídeos teriam encontrado na dimensão extra comportamental – porque é para isso que as ferramentas são usadas – uma nítida vantagem. Esse cenário combinou o andar ereto e o uso de ferramentas como forças desencadeantes da evolução humana, seguindo-se, como resultado, os pequenos caninos. A sofisticação comportamental em grande parte ajudou esses ancestrais humanos a propelir em direção ao longo caminho para a humanidade, como hoje a conhecemos. Em termos evolucionários, a velocidade com que essa jornada foi empreendida causou assombro, marcos biológicos eram alcançados e ultrapassados com grande rapidez. A criatura – utilizando-se somente ainda de uma condição racional primária – estava num estado tão dinâmico de evolução, que é quase mais trabalhoso do que útil, tentar identificar qualquer período particular por meio de nomes específicos definidos. O ponto principal é que essa criatura já estava efetivamente a caminho dos humanos atuais.

Desde os tempos em que os seres humanos viviam em grutas e cavernas, eles só dispunham de seus instintos naturais, devendo ter assim bastante dificuldade em interpretar determinados acontecimentos. Aos poucos foram adquirindo um nível de inteligência, um pouco rudimentar é certo, mas já começaram a entender melhor o espaço em que viviam. A partir de um determinado momento principiaram a compreender a constituição de sua própria matéria e o espaço que os envolviam.

Quando pela primeira vez o nosso comportamento passou a se processar através de uma escolha consciente, ou melhor, quando se permitiu que os seres humanos fossem dotados de um novo elemento energético – a inteligência -, que lhes deu condições de julgar atos realizados, foi possível romper – não importa em que grau – com o determinismo da natureza. Isso provocou uma enorme diferença, criando uma linha que separou perfeitamente o homem dos animais.

Embora seja muito difícil traçar uma linha nítida, o certo e identificável não é apenas o fato do homem passar a possuir essas novas características, mas o que eles fizeram com elas. Os homens, desde o início de sua vivência na Terra, sempre demonstraram capacidade de realizar mudanças e a História da Civilização comprova isso. Ainda não se dispõe, entretanto, de indicações que possam identificar o primeiro passo que afastou a evolução humana da determinação da natureza.

Desde os tempos em que os seres humanos viviam em grutas e cavernas, eles só dispunham de seus instintos naturais, devendo ter assim bastante dificuldade em interpretar determinados acontecimentos. Aos poucos foram adquirindo um nível de inteligência, um pouco rudimentar é certo, mas já começaram a entender melhor o espaço em que viviam. A partir de um determinado momento principiaram a compreender a constituição de sua própria matéria e o espaço que os envolviam, iniciando, assim, a primitiva humanidade inteligente uma nova forma de vida, em que as crenças, mitos e lendas começavam a surgir.

Embora tivessem ocorrido muitas interrupções no caminho da evolução, em face da seqüência de acidentes de seleção, os novos grupos que se foram criando foram evoluindo para as atuais famílias de mamíferos, em que a nossa espécie humana pôde se definir.

Apesar de as enormes alterações de temperatura terem levado centenas de milênios e até mesmo milhões de anos para irem completando sua trajetória, elas sempre continuavam a ocorrer. Os extremos resultantes do congelamento, por um lado, e da aridez, por outro, extinguiram algumas possíveis linhas de desenvolvimento. Inversamente, em outras épocas e locais, o início de condições apropriadas e favoráveis permitia o florescimento de algumas outras espécies e lhes estimulava a expansão em novo habitat. Neste processo imensamente longo, e mesmo antes do aparecimento das criaturas das quais a humanidade se originaria, o clima estabelecia o palco em que ocorreria a história humana e moldava, através da seleção, a eventual herança genética da própria humanidade.

Sempre imaginamos que os seres humanos são os responsáveis pela situação quase caótica que atravessa o mundo. Caberia, entretanto, suavizarmos um pouco nossa atitude, se considerarmos o grande desafio que foi imposto à espécie humana, depois que parte da energia se transformou em matéria. Quando o ser humano começou a se formar, era apenas dotado de mente racional, que só permitia que usasse o seu instinto, já delineado em sua linha genética. E a espécie humana, nessa nova fase, se comportava como uma criança desprotegida, que despontava num ambiente hostil, sem o apoio ideal de seus pais biológicos, que também estavam começando a ingressar nesse novo estágio do mundo. Eles teriam que aprender a viver usando apenas a experiência que iam adquirindo através as intermináveis fases de sua vida.

Atualmente muitos biólogos apresentam algumas hipóteses que explicam o desenvolvimento da vida do homem por meio de uma “seleção natural”. Nem todos, mas muitos concordam que a evolução funciona através de um meio ambiente que favoreça a sobrevivência de alguns grupos genéticos e desfavoreça outros. As mensagens genéticas que derivam do novo modo de viver são transmitidas para a geração seguinte. As desfavorecidas não, porque o meio ambiente as erradica para que a herança genética não possa ser transmitida.

Não se deve repousar num foco específico da evolução humana. É quase certo que a mudança tenha ocorrido simultaneamente em muitos lugares. Pode-se presumir que quando da transição do Homo-erectus para o Homo-sapiens, que provavelmente ocorreu por volta de meio milhão de anos, a caça e a colheita continuavam como estilo de vida primário. Eles eram os meios universais de subsistência, com bandos de hominídeos explorando as dádivas sazonais dos reinos animal e vegetal de sua localidade. Já tinham sido inventados os arcos e as flechas, bem como as lanças e os arremessadores delas, armas que significaram importantes avanços tecnológicos para a caça.

Era uma existência difícil e cheia de perigos. Homens, mulheres e crianças ficavam expostos à seleção impiedosa de um meio ambiente impessoal. Se vagarosos ou imprudentes, caíam vítimas dos predadores; se enfraquecidos, morriam de fome; os mais idosos não conseguiam sobreviver aos rigores de uma maior seca. Só os indivíduos que, devido ao acaso de uma variação genética, tinham um organismo mais adequado para suportar essas condições, conseguiam sobreviver e, ao se reproduzirem, transmitiam essas vantagens aos genes de seus filhos, aumentando-lhes as possibilidades de sucesso. O organismo humano foi assim reagindo e se adaptando às exigências do mundo onde viviam e incorporando a seus genes as transformações físicas mais necessárias e importantes para a sobrevivência da espécie.

Os paleontólogos afirmam que os humanos modernos se desenvolveram a partir de seus antepassados arcaicos espalhados pelo mundo nos últimos milhões de anos. Inversamente, os geneticistas moleculares, Rebecca L.Cann e Allan C. Wilson, especialistas em comparações genéticas se convenceram de que todos os humanos de hoje podem ser rastreados pela linha materna de descendência de uma mulher que viveu há cerca de 200 mil anos, provavelmente na África. Os homens modernos, segundo esses cientistas, surgiram em um único local e dali se espalharam para outros (Scientific American Brasil – Edição especial nº. 2).

Convém se enfatizar que as variações físicas que vemos hoje entre as pessoas, de diferentes partes do mundo, são variações dentro da espécie Homo-sapiens, e que aconteceram em virtude da separação geográfica e da adaptação a condições locais particulares, fato que Darwin explorou bastante. Por exemplo, os esquimós são atarracados, tipo físico mais adaptado à conservação do calor. Compare-os com os elegantes Maasai, cujos corpos, como os de indivíduos de muitas tribos de países tropicais, são bem adaptados à perda de calor. Os habitantes das regiões tropicais, como os aborígines da Austrália e os povos africanos adquiriram um tom mais escuro de pele, e essa pigmentação escura podem ter sido adquiridos muitas vezes de maneira diferente e independente, de modo que a pele negra, em si, não é indicação de parentesco imediato com outra pele negra. A coloração escura tinha por objetivo a proteção, pois os raios solares em excesso, nas regiões equatoriais, são extremamente prejudiciais à saúde. Se incidissem numa pele clara e desprotegida, seria bastante prejudicial ao indivíduo.

Nas regiões frias a situação era inversa. Os raios solares, em quantidade moderada, eram importantes para a saúde. Sem eles o organismo não poderia produzir a vitamina D. Dessa forma, parcela dos Homo-sapiens nórdicos, como os lapões da Escandinávia, onde o céu estava freqüentemente encoberto, tinham a sua pele branca. Os esquimós, que viviam dentro do Círculo Ártico, também possuíam pele muito clara. Mas em contrapartida, como já dissemos, seu aspeto físico era exatamente oposto ao magro e alongado habitante dos desertos, permitindo-lhes maior conservação de calor corporal.

A necessidade de proteger a pele por meio de pigmentação surgiu, é claro, quando os primeiros hominídeos começaram a perder sua espessa camada de pêlos. Nós ainda, uns mais outros menos, conservamos tantos pêlos quanto nossos primos antropóides, mas eles são finos e curtos e, portanto, deixam a pele quase nua. Deve ter havido alguma vantagem associada ao nosso antigo despir, e uma forte possibilidade, é que isso nos permitiu elaborar um sistema muito eficiente de resfriamento, graças aos mais de cinco milhões de diminutos poros espalhados por todo o corpo. Pela evaporação da umidade através desses poros, podemos perder calor num grau nunca igualado por qualquer outro animal – grande vantagem para realizações de intensa atividade sob um sol causticante. Esse benefício traz consigo uma ligeira desvantagem, causada pelo aumento da dependência de água: a umidade perdida pela transpiração tem de ser reposta pela ingestão freqüente de líquidos.

Em oito mil anos, pelo menos parte da população, calculam os historiadores, havia mudado para um novo modo de vida – o da agricultura. A velocidade da transição e da natureza da mudança foi dramática, e ela só se tornou possível com a miscigenação contínua de genes, contribuindo para um mais perfeito assentamento desse núcleo responsável pela implantação da civilização no planeta. De modo geral, os bandos eram bastante pequenos, consistindo-se, talvez, em cinco ou seis unidades familiares. Eles seriam parte de uma tribo grande e dispersa, partilhando a língua e a cultura de seus vizinhos, mas eles já não precisavam mais mudar de acampamento depois de poucas semanas à procura de novas fontes de alimentos. Alguns chegavam mesmo a constituir pequenas vilas, contendo cem ou mais indivíduos.

Movimentavam-se por uma terra que partilhavam com outros bandos e tribos, não de todo sem confrontações, mas também sem procurá-las, como inevitável necessidade ou meio de existência. Pelo novo tipo de vida que os agricultores passaram a ter, começou a ocorrer, entretanto, a possibilidade de acúmulo de bens materiais, impondo um aspeto novo ao seu comportamento, quando as terras plantadas e também os bens acumulados tinham que ser defendidos. Quando se tornou possível o estabelecimento de aldeias em grande escala, as populações vizinhas encontraram boas razões para cobiçar os recursos de seus vizinhos.

Ao contrário do modo de vida de caça e coleta, onde os pequenos bandos eram mais aptos para explorar as fontes alimentícias, a concentração de alimentos mediante o cultivo da terra permitia que as populações locais crescessem, e as aldeias se tornassem cidades. Começou-se, assim, a gerar no raciocínio ainda um pouco elementar de nossos ancestrais, que poderiam se apoderar das plantações de uma aldeia vizinha, já que iriam se beneficiar, pois sua população poderia expandir-se por causa do alimento adicional. Está claro que haveria antes a questão irrelevante de uma batalha, mas desde que as perdas não fossem muito grandes, a primeira aldeia se colocaria numa posição vantajosa. Pode-se, assim, com certa segurança, dizer que nesse exato momento, tiveram início as guerras e conquistas que atualmente vem levando a nossa humanidade à sua própria destruição.

BIBLIOGRAFIACAPRA, Fritjof – “O Tau da Física. e o ponto de mutação” – São Paulo. Editora Cultrix, 1998 CAPRA. Fritjof, e STEIDEL-RAST – Pertencendo ao universo – São Paulo – Editora Cultrix, 1988.

EYSENK, H.J. versus Kamin, Leon. O Grande debate sobre a Inteligência. Brasil-DF. Editora Universidade de Brasília, 1982.

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LEAKEY, Richard & LEWIN, Roger. Origens. Brasília, Edit. Universidade de Brasília, 1980.

ROBERTS, J.M. O Livro de Ouro da História do Mundo. Rio de Janeiro, Editora Publicações S.A., 2001.

SAGAN, Carl – Murmúrios da Terra. Rio de Janeiro. Livraria Francisco Alves Editora, 1984.

TAIMNI, I.K. – O Homem, Deus



caroline de catro says:

legal



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